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26 fevereiro 2015

A casa grande ainda mora em nossos teatros




         Fui a uma peça de teatro nesse fim de semana com a minha namorada. Tratava-se de um espetáculo da campanha de popularização do teatro e da dança, uma das iniciativas culturais mais interessantes que ocorre na região metropolitana de Belo Horizonte. Era uma peça de comédia, a casa estava cheia, quase não havia local para sentar, pois se tratava de uma das peças mais badaladas aqui em Minas Gerais, uma comédia chamada: “Acredite, um espírito baixou em mim”.
         A peça é uma comédia até interessante, mas o que mais me chamou a atenção foi perceber que a nossa classe média ainda não se livrou de alguns estereótipos, de alguns preconceitos viscerais que existem na sociedade brasileira, fruto de um elitismo cultural que vem de nossos tempos coloniais/coronelistas e do nosso processo de modernização feito através de uma elite que desejava ser europeia/estadunidense. Nessa peça pude perceber claramente o classismo, um racismo bem apagado, mas presente, e uma homofobia transvertida em humor que talvez seja hoje uma das questões mais cruéis que nossa sociedade ainda mantém.
         Realmente eu não acho que os atores tinham a intenção de ofender alguém, até pelo contrário. Eles me pareceram bastante simpáticos. E talvez tenha sido isso que tenha mais me preocupado. Talvez eles tenham sido racistas, homofóbicos, classistas e elitistas sem mesmo perceberem que estavam fazendo isso. Fizeram de forma inocente e naturalizaram as coisas. Ali se construiu um deboche ao Outro, construindo assim, uma identidade ideal padrão. O normal, belo, bonito, ficou sendo representado pelo homem branco, bem sucedido de classe média, enquanto o anormal e motivo de risos foi constituído na figura do pobre, homossexual e da mulher brega de origem pobre.
         Os velhos estereótipos produtores dos nossos piores preconceitos aparecem ali. O gay como motivo de chacota, ao lado pobre. A ausência do negro. Os ofícios dos pobres mostrados como algo negativo, e, por fim, como positivo, a figura do homem branco, heterossexual, jovem, de cabelos lisos.

         É a perpetuação dos velhos preconceitos como algo correto, em tom de humor, proferido a um público de classe média de escolaridade média, que não conhece os mínimos conceitos históricos para compreender as origens dessas ideias e o quanto elas podem ser nocivas à sociedade. Isso explica a quantidade de risadas que eu ouvi, enquanto eu ouvia estarrecido os pobres e os gays serem motivos de chacota.

Átila Siqueira é Historiador, Bacharel em História pela PUC-MG e Mestrando em História, pelo programa de pós-graduação em História da UFMG, na linha de História e Culturas Políticas.
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08 janeiro 2014

A prostituição deve ser descriminalizada?

Por Vladimir Safatle - Revista Carta Capital

No início de dezembro (2013), a Assembleia Nacional francesa votou um texto que criminaliza quem paga uma prostituta. Se aprovado no Senado, imporá uma multa de 1,5 mil euros a quem pagar por sexo. O governo promete usar o dinheiro para criar um fundo destinado a auxiliar prostitutas a procurarem outras profissões.
A discussão é interessante, por tocar em questões que acabam por dizer respeito a todos. O debate colocou, de um lado, o grosso das associações feministas e de defesa dos direitos das mulheres. Surpreendentemente, as associações de defesa dos direitos das prostitutas foram profundamente contrárias ao texto. Segundo elas, o resultado será fazer da prostituição uma atividade ainda mais escondida e vulnerável à exploração.

Há três maneiras 
de discutir o problema: apelar ao pragmatismo, colocar na frente a luta contra a prática de tráfico e aliciamento de mulheres e, por fim, levantar questões de ordem moral. De todas, as questões de ordem moral são as mais frágeis.
Poderíamos aqui adotar um viés pragmático e afirmar que tão velha quanto a prostituição é a promessa dos governos de acabarem com ela. Sempre há alguém em campanhas morais na porta de prostíbulos. Elas se demonstraram, por séculos, ineficazes.
Esse argumento tem, porém, suas falhas. A Suécia criminalizou a prostituição. Embora a prática não tenha sido completamente extinta, estatísticas oficiais afirmam que ela caiu 50%. Ou seja, é possível, por lei, se não acabar, ao menos diminuir a prática da prostituição. Resta saber se de fato precisamos de algo assim.
Aqui entra a discussão a respeito do tipo de problema que a prática realmente representa. No caso francês, a questão que apareceu como justificativa para todo esse esforço legal foi o tráfico de mulheres, imigrantes ilegais aliciadas em países mais pobres e em situação de exploração e fragilidade social. De fato, não há como negar a gravidade do problema, mas aqui fica clara a desorientação da proposta. Pois, se esse é, de fato, o problema central, então bastava reforçar as leis existentes contra a exploração econômica de imigrantes ilegais e, como foi feito na Holanda, dotar a prática de um conjunto substancial de dispositivos legais de amparo social.
Colocar as coisas nesses termos serve para focar o debate em torno de seu verdadeiro núcleo: a questão moral. Sim, esse sempre foi e sempre será um debate moral e merece ser tratado como tal. Há, no entanto, duas questões morais envolvidas. A primeira é: “Podemos aceitar o desejo de submeter as relações sexuais a um contrato comercial?” A segunda: “O Estado tem o direito de legislar sobre a vida sexual de seus cidadãos?”
Seria possível reformular a segunda pergunta e afirmar que não se trata, nesse caso, de dar ao Estado o direito de legislar sobre minha vida sexual, mas de impedir que seus cidadãos se submetam a trabalhos degradantes como a prostituição. No que chegamos a uma questão importante: deve se considerar a prostituição, em si, uma degradação? Se dotássemos as prostitutas de todas as garantias sociais que damos a outros trabalhos e puníssemos com rigor sua exploração econômica, ela ainda seria uma degradação? Isso nos leva à primeira questão, a saber, se o ato de submeter as relações sexuais a um contrato comercial é, em si, uma degradação. Poderíamos ainda colocar uma questão suplementar, do tipo: por que para nós submeter o uso da força de trabalho a um contrato comercial nos parece justo e submeter as relações sexuais às mesmas modalidades de contrato nos parece degradante? 

Se você responder
 que relações sexuais não podem ser objetos de contratos, então seria bom se perguntar por
que a infidelidade conjugal é um crime tipificado pela legislação penal brasileira com punição de 15 dias a seis meses de prisão. Ela só pode ser crime pelo fato de a legislação compreender o casamento como um contrato que rege, entre outras coisas, as relações sexuais.
Ao menos nesse ponto, a prostituição simplesmente torna explícita as regras legais presentes no casamento, como a legislação vigente o compreende. Ou seja, se a prostituição for, em si, degradante, então não teríamos como defender a concepção legal do casamento. O que mostra quão problemática é a tentativa de criticar moralmente  e criminalizar a prostituição.
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04 dezembro 2013

Lobão no Roda Viva dá show de contradições e afunda em sua mitomania

Do site: Folha Social


Lobão fantasia a sua realidade, para usar um eufemismo. Conseguiu se enrolar miseravelmente a cada vez que a bancada — especialmente a jornalista Julia Duailibi, do Estadão — fazia uma pergunta mais contundente sobre sua orientação política. É a favor da ditadura militar? “Não”, ele dizia. Alguém lia um trecho de seu livro que o desmentia ou lembrava de uma besteira que falou. E então vinha uma explicação que misturava indigência mental e pura confusão. Som e fúria significando nada.

A certa altura, declarou que inventou a cena independente na música brasileira. Nenhum dos entrevistadores achou aquilo esquisito. No mínimo porque não existe cena independente. O que ele fez, na verdade, foi criar uma revista que vinha com um CD de brinde. É um jeito malandro de vender CD (o papel da revista tem isenção fiscal). Não deu certo e a culpa é do Pablo Capilé.

A história maluca mais reveladora, porém, diz respeito à Globo. Lobão pediu desculpas, publicamente, por ter apoiado o PT em 1989, durante um programa do Faustão. Foi uma “molecagem”. Segundo ele, o “doutor” — “doutor” — Roberto Marinho teria telefonado para seu pai, comunicando-lhe que o filho não cantaria mais na emissora. Lobão teria sido “indexado”.

Digamos que Lobão esteja mesmo numa lista negra e não que tenha saído do radar da Globo por irrelevância ou seja lá por que motivo. Mas, ei, quem faz um índex desse tipo não avisa a vítima. Além da conversa provavelmente fictícia, ficou patente o desespero de Lobão em ser aceito por quem lhe cuspiu em cima (ao menos em seu universo paranóico).
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03 outubro 2013

Brown responde Lobão: 'age como uma puta para vender livros'

Mano Brown responde críticas de Lobão: “resolver como homem”. Líder do Racionais MCs respondeu ataques do músico que lança o livro ‘Manifesto do Nada na Terra do Nunca’



Lançando o livro Manifesto do Nada na Terra do Nunca, o músico Lobão atacou diversas personalidades brasileiras. Em trechos da publicação, o cantor chama Dilma Rousseff de “torturadora” e o cantor Roberto Carlos é referido como “múmia deprimida”. Os ataques respingaram também nos rappers do Racionais MCs, descritos como “braço armado do PT”.
Mano Brown, líder do grupo paulistano de rap, foi ao Twitter responder alguns fãs que questionaram qual seria sua postura após o ataque de Lobão.

Veja a resposta de Mano Brown:

Conheci o Lobão em 1996. Cumprimentei e depois disso nunca mais o vi. Sinceramente não tenho o que falar da pessoa dele. Estranho o Lobão falar de mim sem nunca ter me conhecido. Não entendo a postura dele agora. Ele pregava a ética e a rebeldia. Age como uma puta para vender livro. Nos anos 80 as ideias dele não fizeram a diferença para a gente aqui da favela. Ninguém é obrigado a concordar com ninguém, nem ele comigo. O Lobão está sendo leviano e desinformado. Tô sempre no Rio de Janeiro, se ele quiser resolver como homem, demorô! Do jeito que aprendi aqui“.
Respondendo ao Twitter de Mano Brown, a produtora Paula Lavigne também se pronunciou: “Você segura o Lobão que vai ter uma fila pra bater! kkkkk Até eu fui esculhambada! Vamos cobrar royaltes desse livro”.
O rapper Emicida também se manifestou pelo Twitter. “Pela quantidade de gente me pedindo opinião, logo concluo, tem algum infeliz desinformado falando besteira sobre o hip hop em algum lugar.”

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24 setembro 2013

20 PEQUENAS CARACTERÍSTICAS DO PERFEITO IDIOTA DO FACEBOOK

20 PEQUENAS CARACTERÍSTICAS DO PERFEITO IDIOTA DO FACEBOOK

20 PEQUENAS CARACTERÍSTICAS DO PERFEITO IDIOTA DO FACEBOOK


1) Ele adora "humor" contra o oprimido. Vibra com CQC e Marcelo Madureira. No fundo, porque é homofóbico, racista, sexista, reacionário e preconceituoso. Quando lhe pedem civilidade, responde com a estupidez habitual: "isso aí é a ditadura do politicamente correto".


2) Ele jura que tem "opinião própria" e que ninguém faz sua cabeça. No entanto, formula seus julgamentos a partir da informação viciada que absorve, direta ou indiretamente, de Veja, Globo, Band, Estadão e Folha.


3) Ele acredita que a corrupção brasileira foi inventada pelo metalúrgico e que o "mensalão" realmente tirou bilhões de reais do povo brasileiro.


4) Ele adora falar em "educação padrão FIFA", mas não se ligou na luta pela destinação do royalties do petróleo.


5) Ele exulta em exigir "saúde padrão FIFA", mas caiu no conto do vigário das corporações médicas e combate furiosamente o programa Mais Médicos.


6) Ele nunca ouviu falar de Privataria, Mensalão Tucano e Propinoduto do Metrô. Se ouviu, finge que não se trata de assunto de maior relevância. O idiota do Facebook tem uma moral seletiva.


7) Ao acompanhar Bonner, Casoy, Merval Pereira, Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo, ele costuma bater palmas. Depois, faz cara de nojo e proclama que "antes não era assim". Acredita piamente que o Brasil tenha sido muito melhor no passado, mesmo que a História e a Matemática provem que não.


8)Ele confunde ética com moralismo. Acredita que qualquer denúncia dos meios de comunicação hegemônicos tem peso de sentença condenatória. Vive compelido a atribuir ao governo a culpa por seus fracassos pessoais.


9) Ele prega honestidade, seriedade e respeito aos demais. No entanto, repassa sem checar qualquer peça midiática de calúnia e difamação.


10) Ele adora frases feitas sobre amor e felicidade, mas sofre tremendamente quando precisa compartilhar alguma parcela de seus "ativos", mesmo que na forma de tempo ou atenção.


11) Ele acredita pertencer ao grupo denominado "gente de bem", dos pios e veneráveis. No entanto, fura fila, cola na prova, molha a mão do guarda e sonega o que pode em seus impostos. O rosto de madeira o define.


12) Ele adora emitir críticas aos demais brasileiros como se fosse um gringo em visita ao país ou um alienígena investigando este rincão do planeta. Quando branco, procura evitar reproduzir a história dos antepassados, quase sempre degredados, renegados ou mão de obra excedente e miserável.


13) Ele é um eterno vira-latas. Arranja um jeito de justificar qualquer agressão das potências do Norte ao Brasil. Para ele, não existe pobreza, injustiça ou sofrimento nos Estados Unidos da América. Mesmo quando lavou privadas do Tio Sam, estufa o peito para elogiar seus capatazes.


14) Ele se julga muito bem formado, mas não sabe fazer conta de dividir, não entende um gráfico e, quando contestado, grita desesperado que "tudo é manipulação deste governo que está aí".


15) Ele ergue cartazes para pedir um "um país melhor", mas por dentro odeia ver o filho de porteiro na universidade, a servidora doméstica na agência de automóveis e o servente de pedreiro no check-in do aeroporto.


16) Ele se faz de sério e repete clichês sobre sustentabilidade. Jura que deseja um futuro melhor para seus filhos e netos. No entanto, nem cogita de modificar seus padrões de consumo. Adora uma grife e sustenta as empresas que estão arrasando os recursos naturais.


17) Ele adora afirmar que não se liga em modismos, mas não troca o avatar em que imita, no vestuário, na cosmética e na careta, as celebridades midiáticas.


18) Ele se excita ao falar Inglês e enfiar anglicismos desnecessários em suas postagens. No entanto, ainda se atrapalha com o Português. Pode até ter decorado as regras de Gramática, mas raramente argumenta com clareza.


19) Ele costuma dizer que "conhece muitos países", mesmo quando a França se resume ao trajeto de passeio monitorado da CVC.


20) Ele declara admirar a democracia, mas, no fundo, não tolera a opinião divergente. Se alguém lhe mostrar um mundo diferente daquele oferecido no cardápio tradicional, o idiota do Facebook vai ter um chilique. Pode perder a compostura e desfiar um rosário adornado de palavrões. Ou pode prestar um favor ao discordante, e desadicioná-lo.


Conteúdo encontrado no Facebook.

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28 agosto 2013

Imperdível - entrevista com Marilena Chuaí

Em entrevista à revista Cult, a filósofa Marilena Chauí dá sua opinião sobre as “jornadas de junho”, as grandes manifestações que tomaram conta do Brasil no período.
Revista CULT n˚ 182
A Lucidez de Marilena Chaui
Por Juvenal Savian Filho
Não seria possível não ouvir Marilena Chaui a respeito das manifestações de 2013. Pensadora de importância inestimável na história da cultura brasileira, Marilena chamou a atenção nos últimos anos por ter rompido com a mídia. Depois do tratamento imprudente que a maior parte do jornalismo brasileiro deu a questões políticas graves, Marilena decidiu “não falar mais”. Seu silêncio tornou-se insuportável para os grandes veículos de comunicação. Frequentemente cronistas dizem: “o que Marilena Chaui pensaria sobre isso?”. É óbvia a ironia da pergunta, usada para dar a entender que o silêncio de Marilena se deve ao fato de ela não ter o que dizer diante dos erros do PT e do governo federal, tão defendidos por ela nos últimos 10 anos.
À CULT, porém, Marilena nunca fechou as portas. Muito pelo contrário. E no último domingo de junho, em plena fase das manifestações por todo o Brasil, ela nos acolheu em sua casa, no fim da tarde, para uma conversa franca na qual ela não apenas comenta o sentido das manifestações, com também fala com sinceridade de suas críticas ao PT e ao governo do PT. Não o faz, todavia, com amargura ou ressentimento, mas com a força e a coragem de uma mulher lúcida e clara, engajada numa luta que não se perde nem em posições ligeiras nem em novidades fáceis. Com a generosidade que a caracteriza, ela sabe triar o que é bom e o que deve ser questionado, mas sendo sempre movida pelo bem, pela responsabilidade intelectual e pela lucidez de quem tem experiência. Como dizia Maurice Merleau-Ponty, o intelectual é aquele que “levanta e fala”. Mas, muitas vezes, o levantar e o falar têm sido acompanhados de inconsequências que vão desde a incapacidade de análise até o autoritarismo da arrogância em nome da racionalidade (ou em nome de nada…). Definitivamente, esse não é o caso de Marilena Chaui.
CULT: Qual foi sua primeira reação ao ver tanta gente nas ruas durante as manifestações de 2013?
Marilena Chaui: Um susto! Acompanhei as tentativas de manifestação do Passe Livre na USP e vi que o movimento não conseguia mais do que três gatos pingados para escutar. Nem digo participar da manifestação, mas escutar. Imaginei que iriam para a rua com cinquenta, cem pessoas. Então, levei um susto, pois não tinha entendido a relação entre o que eles estavam fazendo, ou seja, a fórmula clássica da mobilização, e o uso das redes sociais. Se eu soubesse que eles iriam usar as redes sociais, não teria me assustado, pois associaria com outros eventos que já vi no mundo.
C: E como se deu sua compreensão das manifestações?
MC: No primeiro dia, pelo menos em São Paulo, as palavras de ordem eram referentes ao transporte. Depois da primeira manifestação, participei do Conselho da Cidade convocado pelo prefeito Fernando Haddad. Os representantes do Passe Livre foram e falaram. Eles eram cinco e cada um falou 15 minutos. Depois os conselheiros falaram. Todos os conselheiros pediram a revogação do aumento das tarifas. O secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, mostrou as planilhas e depois falou o prefeito. Eu imediatamente pensei: se o prefeito revogar, os meninos vão à rua comemorar: se ele não revogar, vai haver uma passeata não só como a primeira, mas sobretudo com incorporação das palavras de ordem das outras cidades. E não deu outra. Algumas pessoas ficaram perplexas; eu não. Diziam: “Como pode haver manifestação? A inflação está sob controle; o desemprego diminuiu; os programas sociais funcionam; há estabilidade econômica e política!” Ou seja, os temas que sempre caracterizaram as manifestações no Brasil estavam ausentes. Eu não fiquei perplexa no que se refere a São Paulo, porque tenho dito há um bom tempo que a cidade está se tornando um inferno urbano. Está impossível viver nela, seja pelo trânsito, pela indecência do transporte coletivo, seja pela explosão demográfica com os condomínios e shopping centers. Achei compreensível, e, num primeiro momento, pensei que as manifestações iriam girar em torno dos temas urbanos. Mas quando se viraram contra a política, contra a mediação institucional, aí, sim, fiquei com medo, porque já vi esse filme em 1964 e 1969. A gente sabe o que aconteceu nos anos 1920, na Itália, e nos anos 1930, na Alemanha, sobre a recusa da política.
C: Mas se falou muito que Haddad foi ambíguo. Ele disse que não revogava o aumento das tarifas, mas depois revogou…
MC: Não, ele não foi ambíguo. Ele disse o seguinte: “Se eu revogar, significa que tenho de aumentar o subsídio. Para aumentar o subsídio, vou ter de cortar recursos dos programas sociais. Então, tenho de ver isso com meu secretariado; tenho de analisar onde eu vou mexer para subsidiar e para fazer o corte”. Na verdade, ele pediu um tempo para as pessoas. Não disse que não iria revogar. E foi nessa hora que alguns conselheiros (como os do movimento Afroeducação) e os membros do Passe Livre disseram que não queriam saber de planilha, que queriam a revogação imediata. Então, não houve ambiguidade. Faltou intuição política, pois Haddad poderia ter dito: “Vou revogar, mas convido imediatamente o Movimento Passe Livre para uma reunião comigo e com o secretariado para fazermos um estudo de onde eu vou tirar o subsídio”. Com isso, ele incorporaria o movimento à discussão de outros problemas da cidade e teria sido mais politizador. Haddad deu uma resposta técnica em um momento que pedia uma resposta política.
C: Algumas pessoas dizem que as manifestações tiveram uma deriva à direita. Um dado curioso é que há políticos da oposição, seja de “esquerda”, como os do PSTU e do PSOL, seja de “centro-direita”, como os do PSDB, que têm se servido das manifestações para alimentar um discurso anti-PT e anti-Dilma…Você vê uma deriva à direita ou uma deriva anti-governo?
MC: Não vejo nem uma coisa nem outra neste momento. Não posso dizer que amanhã não vá ser isso. O que vejo neste momento é que, como o PSOL e o PSTU não têm representatividade social, pois são minúsculos, o crescimento da manifestação de rua fez com que eles julgassem que poderiam se apropriar dela. Não houve liderança de esquerda, mas uma tentativa, desses partidos, de se apropriar de um movimento de massa que seriam incapazes de realizar. A mesma coisa ocorre com a direita, que não tem força de mobilização, operando sempre por lobby e por meio da repressão (basta ver como opera o lobby dos ruralistas contra o MST e os índios). A chamada oposição de centro-direita está caindo pelas tabelas (basta lembrar o que aconteceu com o movimento do PSDB, o “Cansei”), e por isso, depois de investir contra os movimentos de rua por meio da repressão policial, tenta se apropriar deles porque julga que podem desestabilizar o governo Dilma. Afinal, a primeira atitude do Geraldo Alckmin foi chamar a polícia. Na USP, quando há manifestações, a primeira atitude do reitor é chamar a polícia. Não há nenhum vínculo real entre os partidos chamados de oposição, particularmente o PSDB, e os movimentos de massa. Então, o que temos é: o movimento correndo pelo meio e duas tentativas extremas de apropriação.
C: Isso favorece a apropriação pela direita?
MC: Essa é a minha preocupação. Há elementos que favorecem a apropriação e a manipulação pela direita: o primeiro é o fato de os manifestantes confundirem o que significa ter uma direção e o que significa ter uma liderança. Como eles se organizam em termos de autogestão e horizontalidade, sem dirigentes e dirigidos, eles identificam ter um rumo com ter um líder. Não percebem que não é a mesma coisa. As manifestações, por enquanto, estão sem rumo; têm palavras de ordem as mais variadas, mas não um rumo, o que as torna fragéis e apropriáveis pela mídia e pela direita. O segundo elemento é o que eu chamo de pensamento mágico: os manifestantes usaram as redes sociais, ou seja, um instrumento do qual são apenas usuários e de que não têm conhecimento técnico aprofundado nem qualquer controle econômico. As redes estão inseriadas numa gigantesca estrutura técnico-científica, econômica e com vigilância e controle geopolíticos (o caso que acaba de ser revelado da espionagem norte-americana sobre todo o planeta não pode ser minimizado), de maneira que, sob a aparência de ser uma alternativa libertária, ela também insere os usuários no mundo do controle e da vigilância. Penso que o caso do Egito é um alerta, embora, evidentemente, é um caso que não se compara ao nosso, pois lá a luta está mergulhada nos problemas postos pelas ditaduras e pelo fundamentalismo religioso, e, aqui, se dão numa democracia como luta por direitos. Mas o estopim lá (como em Nova York, na Wall Street) foi o uso das redes sociais. Há ainda um outro aspecto das redes que me pareceu muito claro nas manifestações brasileiras, ou seja, como o usuário não conhece bem o modo de funcionamento das redes, e como para ele basta apertar um botão para que coisas aconteçam, passa-se a ter com a realidade uma relação do mesmo tipo: eu quero, então acontece. Como num ato mágico.
C: Sem nenhuma mediação…
MC: Sem mediação. Essa relação mágica com a realidade está diretamente relacionada com um elemento poderosíssimo da sociedade de consumo e muito usado pelos meios de comunicação: a satisfação imediata do desejo. É uma das raízes da violência, porque anula a mediação, quando, na verdade, o desejo precisa de mediação. No âmbito das manifestações, isso se expressa pela recusa da mediação política. Por que falo em pensamento mágico? Porque o fato de que houve uma longa e difícil negociação em torno da tarifa passa despercebido; é como se o resultado tivesse sido imediato, um passe de mágica. Ora, quando se tira a meidação institucional, o que se pede é a ditadura. Por exemplo, quando vi um rapaz enrolado na bandeira brasileira dizer “meu partido é meu país”, falei comigo mesma: “É algum neonazista que comanda esse menino, pois esse foi o discurso nazista para a supressão dos partidos políticos!”, o que é muito assustador e ainda mais assustador quando uma parte dos manifestantes espancou e ensanguentou manifestantes de esquerda. Eu sempre digo: a crítica aos partidos brasileiros é justificada, a crítica aos governos é justificada, o que não é justificado é não perceber qual a origem desse sistema partidário, qual é a origem desse sistema eleitoral e como é que se luta contra ele. Não se luta suprimindo os partidos, mas produzindo uma nova institucionalidade. E não há essa percepção por grande parte dos manifestantes. Finalmente, outro elemento a ser pensado é o fato de que – ao menos em São Paulo e no Rio – as manifestações de periferia são qualitativamente diferentes das manifestações do centro das cidades. Na periferia, não são manifestações de juventude; ao contrário, há adultos, idosos, crianças e jovens, e as demandas são muito claras. As manifestações do centro das cidades, pelo menos em São Paulo e no Rio de Janeiro, são predominantemente de classe média, e é essa presença que é preocupante, porque sabemos que, depois do Comício dos Cem Mil, em 1964, no Rio de Janeiro, a resposta foi a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, apoiada por Ademar de Barros (governador de São Paulo) e pelos governadores do RJ, MG e BA. Depois houve em outros estados. Foi uma grande marcha de classe média para derrubar o governo Goulart, o que aconteceu no dia 1˚ de abril daquele ano. E depois foi a classe média qu deu o sustentáculo ideológico e apoio social à ditadura civil-militar. Quando vi, nessas duas cidades, as esquerdas tendo de disputar a rua com a direita, não pude deixar de ter essas lembranças. Isso é muito preocupante.
C: Do que falamos quando falamos de clase média?
MC: Há um ano participei de duas reuniões do Conselho de Desenvolvimento Social, criado pela presidenta Dilma para pensar o que eles chamam de “nova classe média”. Nas duas ocasiões, minhas intervenções foram no sentido de dizer: não há uma nova classe média, e sim a velha classe média, que cresceu, prosperou, e está aí. O que surgiu no Brasil com os programas sociais que tiraram 40 milhões de pessoas da linha da miséria (garantido-lhes três refeições diárias, moradia e ensino fundamental) é uma nova classe trabalhadora. Não faz sentido usar os instrumentos dos institutos de pesquisa e da sociologia, falando de classe A, B, C, D, E, definidas por renda e escolaridade. É preciso pensar as classes sociais conforme sua relação com a forma da propriedade e do sistema de produção, isto é, os proprietários privados dos meios sociais de produção e os não-proprietários, isto é, a força produtiva, os trabalhadores. Situada fora do poder econômico (do capital) e da organização social (dos trabalhadores) está a classe média, que sonha com aquele poder e tem como pesadelo “cair” na classe trabalhadora. Esse critério nos permite compreender que o que surgiu no Brasil com os programas sociais foi uma nova classe trabalhadora, mas que surge no momento em que vigora o capitalismo neoliberal. Então ela é precarizada, fragmentada, não possui formas de organização e de referência que lhe permitam ter clara identidade, nem formas de expressão no espaço público. Por isso é atraída pelas ideologias de classe média, como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a do “empreendedorismo” (dos chamados micro-empresários). Mas eu não fui ouvida em Brasília. Depois houve uma reunião final de apresentação de resultados e a equipe técnica continuou com as classes A, B, C, D, E. Disse pra mim mesma: “Sou voto vencido. Vou para casa”. Mas pensei: “Preciso deixar isso registrado”. Então quando a FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) e o Emir Sader organizaram o livro sobre os dez anos Lula/Dilma, decidi que meu artigo seria sobre a nova classe trabalhadora e a necessidade de uma reforma tributária, de uma reforma política e de uma reorganização dos movimentos sociais. Eu sei que o meu artigo destoa dos outros, que se referem às conquistas reais e importantes desses dez anos, mas eu achei que tinha um dever político. Voltando precisamente às manifestações: se se opera com a noção de uma nova classe média, quais serão os programas que deverão ser implantados para atender a essa classe? Serão programas de estímulo às montadoras, às empreiteiras imobiliárias, às importadoras, aprofundando ao mesmo tempo o consumo, a competição e o isolamento. E faz-se explodir o inferno urbano. Quando falo no inferno urbano, viso essa concepção de que os programas governamentais devem estar a serviço dessa classe média.
C: Isso explica a sua afirmação de que odeia a classe média?
MC: É.
C: De fato, ter uma casa confortável, andar de avião, comer bem e poder ir ao cinema não são sinais de classe média… É outra coisa querer absolutamente comprar um carro 4×4… É essa classe média que você odeia? Quer dizer, um ideal de consumo que se está construindo?
MC: Quem ia à Europa nos anos 1950-1960 via trabalhadores dirigindo pequenos carros (na França, o famoso “dois cavalos” da Renault; na Inglaterra, o pequeno “biriba” da Morris; na Itália, o pequeno “cinquecento” da Fiat), saindo de férias com a família (em geral para alguma praia), fazendo compras em lojas de departamento populares, enviando os filhos a creches públicas e, quando maiores, à escola pública de primeiro e segundo graus, às escolas técnicas e mesmo às universidades; também via os trabalhadores tendo direito, juntamente com suas famílias, a hospitais públicos e medicamentos gratuitos, e, evidentemente, possuíam casa própria. Era a Europa da social-democracia e da economia keynesiana, quando as lutas anteriores dos trabalhadores organizados haviam levado à eleição de governantes de centro ou de esquerda e ao surgimento do Estado do Bem-Estar Social, no qual uma parte considerável do fundo público era destinada, sob a forma de salário indireto, aos direitos sociais, reivindicados e, então, conquistados pelas lutas dos trabalhadores. E não viria à cabeça de ninguém dizer que os trabalhadores europeus haviam passado à classe média, como se diz hoje dos trabalhadores brasileiros, após 10 anos de políticas de transferência de renda. Mais do que isso, a classe média conservadora (não falo da parte da classe média que se alinha à esquerda) não tolera isso, grita e espuma contra esses direitos dos trabalhadores. É por isso que eu falo nas “três abominações” que definem essa classe média: trata-se de uma abominação política, porque é fascista; uma abominação ética, porque é violenta; e de uma bominação cognitiva, pois ela é ignorante. Eu acho que muito do que as ruas mostraram no Brasil inteiro foram essas três abominações. Não estou celebrando, diferentemente de vários dos meus colegas, que estão dizendo que um novo Brasil começa, que nada será como antes, que o gigante acordou… Pelo contrário, para quem viu a disputa desigual pelo direito à rua entre os manifestantes de esquerda e de direita, talvez valha a pena lembrar o que escreveu Espinosa: não rir, não lamentar, não detestar nem compactuar, mas compreender.
C: Criticando esse ideal de classe média, você critica o governo federal. O que você diria, então, sobre os comentários que a tomam por alguém de postura fisiológica, cega para os problemas do PT e fascinada pelo fetiche do PT?
MC: Vou contar dois episódios. Quando eu estava ainda no governo da Erundina (1989-1993), já no final da administração, houve um congresso do PT. Eu fui no último dia, quando havia deliberações e moções para apresentar na assembleia geral. Entrei na primeira sala, sentei. Disseram algumas coisas. Não concordei e levantei a mão. A pessoa que estava dirigindo os trabalhos disse: “A companheira é delegada”? Eu disse: “Não”. “Então a companheira não pode falar”. Pensei com meus botões: “Entrei na sala errada. Esta não é uma sala petista. Deixe-me sair”. Saí. Entrei numa outra sala, discutia-se outra coisa. Também tive uma discordância e levantei a mão. A pessoa que dirigia me perguntou: “A companheira é delegada?” Eu disse: “Não, mas já participei de tanto Congresso do PT em que a gente fala… Eu não vou votar, porque eu não sou delegada, mas eu vou falar”. “Não, a companheira não pode falar”. Esse congresso era num lugar que tinha um pátio imenso interno grande. Fui, então, para o meio do pátio e comecei a gritar: “Destruíram o PT! O PT acabou! É preciso refazer o PT!”. Fui levada para fora do recinto, porque “a companheira não estava entendendo o congresso”. Bom, eu venho do período em que o PT era a reunião de movimentos sociais e populares, Comunidades Eclesiais de Base, movimentos sindicais, exilados políticos, ex-guerrilheiros, estudantes, professores, escritores, artistas… Nós formávamos o partido e discutíamos tudo; decidíamos tudo. Quando vi o formato que tinha tomado, falei: “virou uma máquina burocrática”. Tanto que, embora filiada e defensora do participo, não participo de mais nada no interior dele, desde 1993, porque não concordo com essa estrutura. Segundo episódio: quando ocorreu o Mensalão e houve toda a crise, surgiu um grupo que propôs a refundação do PT sob a liderança de Tarso Genro; é um grupo que se chama “Mensagem ao PT”. Eu participo desse grupo, que é completamente autônomo. De vez em quando, temos uma ideia e comunicamos uns aos outros. O Juarez Guimarães fez um livro chamado Leituras da Crise. Lá se encontra minha análise crítica do que aconteceu com o PT: máquina burocrática, máquina eleitoral, sem participação das bases, afastado dos moviementos que deram origem a ele e que o fizeram crescer; portanto, um partido que precisa ser refundado. Dizer que eu estou cegada pelo PT, dizer que eu não faço críticas ao PT é coisa de gente que não lê a literatura política. Basta ler a revista Teoria&Debate, o livro do Juzrez Guimarães e os artigos que eu publiquei mundo afora para ver que sou extremamente crítica. Mas o fato de eu ser crítica não significa que invalido o partido que vi nascer e que foi a condição do estabelecimento da democracia no Brasil, porque foi o único que introduziu a ideia de direitos sociais, políticos e culturais, pois a democracia se define pela criação e garantia de direitos novos. Eu não abro mão disso. O partido não me traiu (como dizem os que o abandonaram). Ele me encoleriza, me enraivece. Eu quero fazer outro com ele, mudá-lo de cima abaixo. Mas sou petista. Isso faz parte da minha história política, da minha luta e do enorme respeito que tenho pelos grandes militantes ao longo de sua história.
C: O que você diz sobre as críticas ao governo do PT?
MC: Vamos começar pela questão da moralidade. Quando houve a crise do Mensalão, escrevi um artigo para a página 3 da Folha de São Paulo (foi meu último artigo para a Folha), em que eu dizia o seguinte: uma visão moralista fala de ética na política. Uma visão efetivamente ética tem que falar em ética da política. A ética na política é a transposição de valores privados para o espaço público; a ética da política é a criação de instituições que tenham valores democráticos e republicanos. Faz mais sentido defender a ética da política, porque se há boa qualidade das instituições, não vai poder haver corrupção, pois a corrupção decorre das péssimas qualidades das nossas instituições, que não são verdadeiramente republicanas nem verdadeiramente democráticas. Eu dizia, naquele artigo, algo que tenho dito desde 1994: que era necessário fazer uma reforma política. Nós herdamos da ditadura o pacote de abril de 1975 do general Golbery (do Couto e Silva). Esse pacote, que transformou os territórios em estados, dividiu o Mato Grosso, dividiu o Piauí, o Pará, enfim, rearrumou o país, tinha como finalidade garantir a maioria para a ARENA e impedir a ação política do MDB. Dessa decisão vieram os casuísmos, o sistema eleitoral e a forma completamente absurda da representação dos estados que não leva em conta a densidade demográfica de cada estado da federação. Um dos articulistas da Folha respondeu, dizendo que eu era fisiológica com relação ao PT e que eu era uma comadre do governo. Nunca mais escrevi na Folha. Então, desde 1994 e 2004 eu bato na tecla da reforma política. Por outro lado, me chamar de fisiológica é muito engraçado, porque nunca tive cargo no partido. Ocupei a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo no governo da Erundina (aliás, eu havia recusado, explicando a ela que não podia, não devia nem queria o cargo; mas ela foi mais persuasiva…). Quando me perguntam: “Você tem uma ideia do que poderia ser o inferno?”, digo: “Sim. A Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo”. Essa experiência foi para mim uma violência metafísica. Não tenho cargo em governos. Não tenho cargos no PT. Não represento nenhum político de coisa nenhuma. Eu sou fisiológica no quê? Isso é o que eu chamo de abominação cognitiva, que significa ausência de análise e uso de uma expressão qualquer que não designa realidade nenhuma. Quer dizer, fisiológica no quê? Nas surras políticas que eu levo? Porque o que eu apanho por ser petista e defender o PT e o governo não está no gibi! Já me chamaram de tudo. Só não fui chamada de santa, querubim e duende. Então, é fisiologismo que eu tenha princípios políticos e que os defenda como tais? A minha questão com relação à moralidade é: o sistema gerado pelo general Golbery, que organiza os sistemas partidário e eleitoral, impede que qualquer governante eleito para o poder executivo possa governar só com o seu partido e o obriga a fazer coalizões que destroem a estrutura partidária, os programas e metas, levando a uma perda de identidade. O exemplo que eu costumo dar é o caso da Luiza Erundina. Era um governo do PT e do PcdoB. Só. Não tinha coalizões nem “base aliada”. Mas, quando ela deixou a Prefeitura, haviam ficado parados na Câmara Municipal 325 projetos de lei, a tarifa zero não passou, e uma série de propostas que foram votadas não foram aprovadas. Alguns políticos influentes pagavam os vereadores. Eu não vou dizer o nome deles, mas vou contar um episódio: quando Erundina apresentou seu primeiro projeto, o José Eduardo Martins Cardoso (atual ministro da Justiça), que era o chefe de gabinete, foi negociar com os vereadores. Havia um vereador, tradicional na casa, que falava pelos outros… Ele fez a seguinte pergunta: “Mas, secretário, o senhor não trouxe a maleta?”. O secretário disse: “Que maleta?”. Ele falou: “A maleta para a gente negociar. Tem um cara aí que já ofereceu para cada um de nós 10 mil dólares. A prefeita cobre?”. Evidentemente, como a prefeita não “cobria”, tivemos 325 projetos de lei que não foram discutidos nem votados. Nós governamos com a cara e a coragem. Ela não conseguiu nenhum empréstimo federal, nenhum empréstimo estadual e bloquearam os pedidos de empréstimos internacionais. Ela governou com os impostos de uma prefeitura que tinha sido quebrada pelo Jânio Quadros. O atual sistema partidário e eleitoral faz com que nenhum eleito para o executivo disponha de maioria no legislativo. Ora, a maioria dos projetos e programas precisa de um legislativo que os aprove. Com o sistema atual você é forçado às coalizões. Então, precisamos fazer a reforma política. Mas quando alguém propõe uma Constituinte Específica para isso, o que o PSDB diz? Que é golpe! Ele não quer que mude o sistema político! Vem dizer que a corrupção está do nosso lado quando eles não querem a mudança no sistema político? Além do que, com esses legislativos que estão aí, quem vai fazer a reforma política? Tem de haver uma Constituinte Específica. A arrogância moralista não faz uma análise de por que o sistema partidário e o sistema eleitoral são como são. Por que a classe média não saiu às ruas numa manifestação nacional para derrubar o general Golbvery e o Pacote de Abril, já que ela quer a ética na política? Não vi nenhum deles na rua. Não ouvi um só grito da parte deles. E agora eles gritam contra o efeito daquilo que o Golbery fez como se fosse obra do PT. E não querem que eu fale em abonição política e cognitiva?
C: Um outro aspecto é a crítica que a esquerda também faz ao governo e ao PT. Por que há, por exemplo, tanta crítica do PSTU, do PSOL e de outros partidos de esquerda?
MC: Vou fazer uma distinção entre pensamento mágico e situação efetiva de vários partidos de esquerda. Começo pelo pensamento mágico. Estive em um debate em que uma participante propôs o programa mínimo para os próximos dias: tirar todos os evangélicos dos legislativos, tirar a Dilma, estatizar os bancos, estatizar as empresas multinacionais e aproveitar a crise muldial do capitalismo, que possivelmente é a última. No caso dos mais velhos, porém, o pensamento mágico é irresponsabilidade política. É importantíssimo que a sociedade faça críticas e leve o governo em direção à esquerda. O Lula e a Erundina diziam isso: “Para poder governar eu preciso dos grandes movimentos sociais puxando para a esquerda”. Ora, com uma ação e um pensamento mágicos, em vez de você puxar para a esquerda e forçar os governos a ir nessa direção, você levanta uma barreira que faz com que ninguém queira ir na sua direção porque ela é tão absurda, irreponsável e ingênua, que ninguém leva a sério. Passo à questão dos vários partidos de esquerda menores (em termos de filiados e de representantes eleitos). Esses partidos não possuem uma base social sólida que lhes dê uma clara representação nacional. Por isso, existem principalmente sob a forma do discurso intempestivo. Se você perguntar qual é a ação política efetiva que eles realizaram ou que estão realizando, e de alcance nacional, não há nenhuma. Se estivéssemos numa ditadura e eles não pudessem agir, eu calaria minha boca imediatamente. Mas nós estamos numa democracia; portanto, eles podem agir. Mas sua ação é pontual, fragmentada e tem a finalidade (justa e necessária) de marcar presença. Por que isso? Porque é a única forma de aparecer no cenário nacional. Se você tomar os meios de comunicação, vai ver uma coisa interessantíssima. Quando, em termos eleitorais, se achou que Heloísa Helena tinha alguma possibilidade de impedir a eleição da Dilma, os meios de comunicação a promoveram de todas as maneiras, até o instante em que ela fez bobagem, porque ela é despolitizada. Passaram então para Marina. Tentaram usá-la. E quando perceberam que a Marina não ia dar conta, a abandonaram também. Então, há uma espécie de exército político de esquerda que funciona como um exército de reserva que as oposições e a mídia instrumentalizam e, depois de usar, esvaziam.
C: Como vc vê o elogio dos movimentos sociais e das lideranças individuais, feito por alguns intelectuais que defendem a superação do modelo partidário?
MC: Eu acho que falta uma verdadeira análise econômica, uma verdadeira análise de classe e uma verdadeira análise do que seja a democracia. Se você não faz uma análise da forma da propriedade, com base na qual você pode pensar a divisão social; se não pensa a sociedade como contraditória e conflituosa; e, sobretudo, se não pensa como exercício de poderes tácitos e implícitos, nunca vai poder operar no campo político. Porque vai operar no campo político sob a forma de explosão espontânea disto ou daquilo. Como é que se garante a vida de coletividades inteiras, a vida de um país inteiro, à espera de que aqui e ali, como cogumelo, brote um líder que fale isso, outro que fale aquilo? Mas não é só isso! Quem vai realizar o que deve ser realizado? Eu posso sair pela rua e dizer: “É o seguinte: amanhã não quero latifúndio no Brasil, não quero agronegócio e quero o fechamento dos bancos. Ponto”. Aí, eu vou nas redes sociais e conclamo o país para ouvir a minha voz nessa direção. OK. Todo mundo aprova. Mas quem executa? Esses elogios são de uma cegueira muito grave, porque há um universo que é composto pela propriedade, pelas classes sociais e pelas institucionalidades. Como é que se vai operar sem isso? Você pode transformar tudo isso numa outra direção, mas não pode dizer que você vai operar sem isso. Você não está em Atenas! Você não está em Roma! Até Roma virou Império e Atenas teve os 30 tiranos! Eu insisto que precisamos compreender o sistema planetário de controle e vigilância postos pela web e pela internet, no qual o centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma, disseminado numa infinidade de máquinas pelo mundo, formando, como explica Paul Mathias, numa nebulosa informacional amplamente insondável, diversamente organizada, às vezes aberta e disponível, mas frequentemente fechada e secreta. A internet nasce numa infraestrutura econômica que ela mantém invisível, aparecendo como um ambiente universal de informação e comunicação globalmente uniforme. Ora, nossa experiência reticular está circunscrita a um número restrito de programas aplicativos que permitem as múltiplas operações desejadas em um número limitado de gestos previstos e uniformes em todo o planeta, sem que tenhamos a menor ideia do que são e significam os protocolos informáticos que empregamos. Ignoramos os procedimentos operacionais que a criaram e a conservam, as leis de sua formação e configuração, sua arquitetura funcional. Por iss, não é possível celebrar as redes sociais como libertárias em si e por si mesmas, dispensando as mediações políticas.
C: Você não teria muita ilusão com o sistema de consulta direta…
MC: Sou totalmente favorável. Pode-se e deve-se fazer isso. Uma das coisas mais impressionantes dos movimentos sociais e populares dos anos 1970-1980 foi que eles introduziram a noção de democracia participativa e que, portanto, era com base no que havia sido decidido por aqueles movimentos que os representantes agiam. Estabelece-se um tipo de instituição – o movimento social e o movimento popular -, que opera horizontalmente e com autonomia e que garante por meio da democracia participativa a verdade da democracia representativa. O representante é efetivamente o seu representante. Há mil e uma maneiras de assegurar a consulta direta. Mas não arrebentando a institucionalidade. É uma coisa pueril.
C: E há uma espécie de incitação à violência por parte de alguns líderes de movimentos sociais e intelectuais de “esquerda”.
MC: Olha, existe a violência revolucionária. Ela se dá no instante em que, pelo conjunto de condições objetivas e subjetivas que se realizam pela própria ação revolucionária, se entra num processo revolucionário. E, durante um processo revolucionário, a forma mesma da realização é a violência. O baixo da sociedade diz “não” para o alto e não reconhece a legitimidade do alto da sociedade. Esse é o movimento revolucionário, com a operação da violência no interior dele, porque é um movimento pelo qual se destroem as instituições vigentes, a forma vigente da propriedade, do poder etc., para criar outra sociedade. E isso se faz com violência; não é por meio da violência e do diálogo. Mas tem de haver organização. Primeiro, a classe revolucionária tem de estar organizada e saber quais são as metas e quais são os alvos físicos. Você não quebra qualquer coisa. Eu me lembro de uma frase lindíssima do Lênin em que ele dizia assim: “Há uma coisa que a burguesia deixou e que nós não vamos destruir: o bom gosto e as boas maneiras”. Ora, não estamos num processo revolucionário, para dizer o mínimo! Se não se está em um processo revolucionário, se não há uma organização da classe revolucionária, se não há a definição de lideranças, metas e alvos, você tem a violência fascista! Porque a forma fascista é a da eliminação do outro. A violência revolucionária não é isso. Ela leva à guerra civil, à destruição física do outro, mas ela não está lá para fazer isso. Ela está lá para produzir a destruição das formas existentes da propriedade e do poder e criar uma sociedade nova. É isso que ela vai fazer. A violência fascista não é isso. Ela é aquela que propõe a exterminação do outro porque ele é outro. Não estamos num processo revolucionário e por isso corremos o risco da violência fascista contra a esquerda (mesmo quando vinda de grupos que se consideram “de esquerda”!).
C: De onde vêm as referências filosóficas desses intelectuais?
MC: Alguns citam Giorgio Agamben; outros, Antonio Negri; outros, ainda, Foucault. Não está claro para mim, porque tenho me ocupado com uma problemática mais ligada aos historiadores ingleses, que procuram saber como se dá o processo de denegação da realidade. Mas tenho um pouco de preocupação com a noção de multitudo de Antonio Negri. Ele parte de Espinosa, afirmando que a multitudo é o sujeito político. O que Espinosa afirma, ao propor a multitudo como sujeito político, é o princípio republicano clássico de que todo poder vem do povo e não pode ser exercido sem ele. Mas, como os humanos são naturalmente seres passionais, eles precisam criar instituições que permitam a convivência sem destruição recíproca, pois, se todo mundo pode tudo (é o que Espinosa chama de direito natural de cada um e da multitudo), ninguém pode nada; a forma da relação será aniquilar o outro, porque o outro é uma barreira ao meu direito e é o meu inimigo. A multitudo é travejada por paixões (medo, esperança, amor, ódio, ambição, inveja, cólera, generosidade, compaixão), ou seja, a multitudo não é a presença da razão no espaço público e é exatamente por isso que a política é instituída como introdução de uma racionalidade prudencial capaz de assegurar que o conflito das paixões não seja eliminado (pois ele define a condição natural dos seres humanos), mas mediado pelo direito coletivo, garantindo um poder que sustente uma sociabilidade segura, pacífica e livre, ou seja, o que Espinosa chama de democracia ou poder popular absoluto. A multitudo espinosana é, ao mesmo tempo, a guardiã da democracia e o maior perigo contra a democracia. Essa contradição é o coração da política. Já a multitudo de Negri não tem conflitos, não é travejada por paixões, não é contraditória, mas é inteiramente positiva. Tudo o que vier dela é bom. Eu digo que as paixões não têm freios, e quando elas estão ligadas à forma da propriedade e ao exercício do governo, você tem de realmente segurar a explosão passional ilimitada. A ideia de uma multitudo essencialmente libertária não foi pensada nem pelos anarquistas. E olha que anarquista adorava o exercício da violência como ação direta!
C: O plebiscito em vista da reforma política pareceria uma forma de fazer falar a multitudo… Mas há intelectuais e políticos de esquerda e de centro-direita que chamam de autoritária a proposta de plebiscito feita pela presidenta Dilma. FHC disse isso. O PSDB está propondo um referendo…
MC: Claro! Não é uma gracinha? O plebiscito é o uso perfeito da ideia de multitudo, e por isso os críticos querem impedir que as contradições se manifestem e que ela realize o trabalho político dos conflitos. Os críticos tomam a multitudo no sentido de turba enfurecida e manipulável. Politicamente incompetente. É inacreditável. É claro que querem, no máximo, um referendo… Como se nossos legislativos fossem subitamente tomados de consciência republicana e democrática e, por si mesmos, fizessem a reforma política. Estão querendo brincar com a gente? E mais, o plebiscito está previsto na Constituição brasileira. De onde vem que é autoritário? Pelo contrário. É efetivamente uma consulta, uma expressão da democracia participativa e da soberania da multitudo, que para isso precisa ser amplamente informada a fim de poder deliberar.
C: A Veja comparou a presidente Dilma com Hugo Chávez…
MC: Estou esperando a hora em que tivermos manifestações de direita iguais às da Venezuela, Bolívia, Chile, Argentina e Uruguai. O plebiscito pressupõe o direito à informação. Se a sociedade não estiver informada, será manipulada. E sabemos do papel da mídia para produzir a desinformação…Vai ser a próxima batalha.
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24 agosto 2013

Médicos de Cuba, bienvenidos camaradas!

Por Miguel do Rosário do blog  O Cafezinho

A decisão do governo de trazer 4 mil médicos cubanos criou um fato político interessante. Política é feita de símbolos, e Cuba é o símbolo mais polêmico, mais profundo e mais romântico da esquerda brasileira.
Entretanto, não creio que, à exceção de neuróticos de extrema-direita, alguém tema que esta iniciativa seja um ensaio para o PT deflagrar uma revolução cubana no país.
Ao contrário, a medida ajuda a distensionar um pouco a relação entre o governo e os setores mais orgânicos e engajados da esquerda organizada, que vem fazendo uma crítica (muitas vezes com razão) cada vez mais severa aos recuos políticos e ideológicos do PT e da presidenta.
O governo identificou que a saúde pública é o principal motivo de angústia dos brasileiros, que o problema é mais grave nas pequenas cidades e lugares isolados, e que não havia interesse dos médicos de trabalharem nessas regiões.
Então lançou um programa, o Mais Médicos, aberto em primeiro lugar para os médicos brasileiros, os quais, influenciados pelas entidades de classe e pela mídia, não demonstraram entusiasmo por ele, nem mesmo diante de um salário de R$ 10 mil, três vezes superior ao piso da categoria, além de auxílio-mudança de até R$ 30 mil.
Ao contrário, o Brasil testemunhou o corporativismo egoísta e reacionário entre os médicos, como se a profissão deles não tivesse nenhuma responsabilidade diante dos problemas da saúde pública brasileira.
A grande mídia, com sempre faz com qualquer iniciativa do governo que vise ajudar o mais pobre, já desatou uma forte campanha contra a vinda dos cubanos.
Desta vez, porém, o governo acertou na mosca. Primeiro fingiu que recuou, lá no início do programa, em julho. Apanhou um pouco da esquerda, mas conseguiu adiar essa polêmica para mais tarde, quando o programa estivesse mais consolidado.
E agora, de supetão, anuncia a vinda de 4 mil médicos cubanos, que começam a chegar dentro de alguns dias.
Engraçado ver a mídia tentando usar as contradições políticas no interior das instituições para desqualificar o programa.
A Folha estampou hoje manchetão na primeira página:
A posição do procurador citado pela Folha não durou algumas horas. Seu chefe, o procurador-geral do Trabalho, deu uma opinião bem diferente:
De qualquer forma, esta é uma polêmica que beneficiará o governo. Há um fator aí de coragem, de enfrentamento, que faz despontar uma luzinha de esperança em relação a muitas outras demandas populares ainda não cumpridas, entre elas a democratização da mídia.
O rechaço à vinda de cubanos parte apenas daqueles setores que já não votam em Dilma Rousseff, ou no PT. A maioria da população não tem preconceito nenhum contra Cuba e seus médicos. Muito pelo contrário, em breve aparecerão imagens e vídeos desses médicos atendendo em comunidades carentes do interior que terão excelente impacto junto à opinião pública.
Trata-se de uma medida que, finalmente, fala à voz das “ruas”, visto que a bandeira por uma saúde pública melhor era a mais presente nas jornadas de junho.  
O governo deveria lançar algum programa de impacto, na área de saúde, também nas grandes cidades.
Bienvenidos camaradas!

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18 agosto 2013

Ministra Delaíde: “Eu não sou Joaquim Barbosa”

Ela trabalhou em lavouras e foi empregada doméstica. Hoje, a ministra Delaíde tem nas mãos 12 mil processos e o desejo assumido de ajudar pessoas com biografia semelhante à sua

As discussões envolvendo a PEC das Domésticas, promulgada em abril pelo Congresso, colocaram luz sobre a atuação e a história de vida de uma ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST). Aos 60 anos, avó de três netos, Delaíde Miranda Arantes trabalhou nas pequenas lavouras do pai no interior de Goiás, foi empregada doméstica na adolescência e se tornou advogada aos 27 anos. No TST desde 2011, ela tem nas mãos 12 mil processos e o desejo assumido de ajudar pessoas com uma biografia semelhante à sua. Transformada em atração nacional depois da aprovação da emenda 72 – que regula o serviço doméstico -, seu gabinete virou um ponto de encontro de parlamentares, lideranças sindicais e assessores do Ministério do Trabalho interessados em debater a regulamentação da proposta. Na semana passada, entre uma audiência e outra, a ministra deu a seguinte entrevista para a revista ISTOÉ:

A sra. foi empregada doméstica e ascendeu na carreira jurídica, em uma trajetória de superação que lembra a do presidente do STF, Joaquim Barbosa. Como avalia a atuação do ministro?

Delaíde Miranda Arantes – Eu não sou Joaquim Barbosa. Temos essa coincidência de trajetórias, mas não penso como ele. Tenho respeito. E tenho o dever hierárquico de respeito, porque ele comanda o Supremo. Entretanto, ele faz críticas à magistratura que eu não faria, pois não contribuem para alterar nada no Judiciário, especialmente pela forma como ele faz. O presidente do Supremo também critica advogados. Preocupam-me as declarações que ele fez ao ministro Ricardo Lewandowski durante o julgamento do mensalão. Eu não critico um colega que vota diferente de mim. Não acho que tenho esse direito. Eu realmente tenho uma preocupação com a forma como ele fala e como se coloca.

Qual o problema desse comportamento?

ministra doméstica delaíde
Delaíde Miranda Arantes, a empregada doméstica que virou ministra. (Foto: Divulgação)
A impressão que tenho é que o presidente do STF pode ter amargura no coração. Às vezes faz discursos duros contra tentativas de defesa de réus. A gente não sabe por que faz isso. Quem sabe Freud possa explicar.

A sra. tem alguma amargura pelo sofrimento que passou?

Nenhuma. Sou liberada, meu coração é livre. Quando me formei em direito, minha carteira foi assinada por um sindicato de trabalhadores com um salário bem pequeno. Fui fazer um cadastro para comprar roupa a crédito e a moça falou: “Olha quanto ela ganha, por isso eu não estudo.” Uma vez fui arrumar emprego em Goiânia e uma das moças que moravam comigo numa república disse que eu não poderia trabalhar em escritório porque não tinha roupas. Na verdade, eu tinha duas roupas, dava para enganar. Um dia usava uma. No outro, a outra.
Seu passado como empregada doméstica a transformou em uma interlocutora de diversos setores nas discussões sobre a PEC 72. Como a sra. vê essas discussões?
A discussão é saudável. O Congresso está preocupado com a multa de 40% em caso de demissão. Faz sentido. Uma empresa tem uma rubrica financeira para as despesas trabalhistas. Quando o empregador é uma pessoa física, isso fica mais complicado. É importante pensar na criação de um fundo com participação do poder público, mas não tenho uma fórmula. Haverá uma solução e acho que ela não demora.

Os conflitos gerados pela PEC vão inundar a Justiça?

Em 1988, milhares de empresas disseram que iriam à falência em função de alguns direitos trabalhistas. Agora não temos empresas reclamando, mas empregadores dizendo que não podem mais ter empregadas, que não vai ser possível suportar. Mas o ônus não é tão grande. Está havendo um superdimensionamento. O ponto principal é tomar cuidado para não criar condições de questionamentos judiciais em demasia, em especial quanto às horas extras. O resto ainda será discutido. Aposto muito no diálogo entre empregada e empregador.

A PEC está sendo criticada porque foi aprovada sem prazo para regulamentação e sem recursos para cursos de profissionalização. A sra. concorda?

Considero que o apoio de políticas públicas será fundamental. Será necessário abrir creches, escolas infantis de tempo integral e até criar uma política de incentivo para a aquisição de casa própria para empregados domésticos.

Mas o governo não está conseguindo sequer cumprir as metas de construção de creches anunciadas antes da PEC…

Esta é uma demanda de muitos anos. Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo. Acho que o setor privado terá que ajudar. Não é possível imaginar que só o setor público dará vazão a essa demanda.

A PEC é eleitoreira?

Na minha opinião, pode ter um componente desse tipo. Todo avanço social, em tese, rende votos. Não tem como se aprovar nada no campo social ou previ­denciário que não se transforme de alguma forma em voto. Mas uma eleição é mais complexa e isso não vira voto diretamente. Quando for votar, a empregada não vai escolher alguém apenas porque aprovou uma emenda. Se houver vantagem eleitoral, será indireta.

A Justiça do Trabalho mudou de perfil nos últimos anos?

Não há dúvida. É uma mudança que reflete as transformações recentes do Brasil. Elas permitiram que uma antiga empregada doméstica, como eu, fosse nomeada ministra do TST. Há alguns anos, isso seria quase impossível. Mas hoje somos um País preocupado com a pobreza. Isso se reflete no trabalho da Justiça e amplia o leque de quem conhece seus direitos e busca por eles. O Brasil presidido por um metalúrgico e depois por uma mulher não é o mesmo País de antes.
Matéria: Pragmatismo Político
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17 agosto 2013

Anitta, embranquecimento e elitização - Matéria da Revista Fórum.

Por Jarid Arraes.

 

Seja pelo preconceito de classe ou pela intolerância diante de letras com conteúdo sexual explícito, as mulheres do funk são grandes vítimas da misoginia e do racismo. Esse grande repúdio contra as artistas femininas do funk é intimamente relacionado à repulsa às mulheres negras, não somente porque a maioria das funkeiras são negras, mas porque o funk tem raizes históricas e é intimamente ligado à cultura negra brasileira.
No entanto, há pelo menos um exemplo atual de mulher que veio do funk e é amplamente aceita e celebrada na mídia: a Anitta. Enquanto as outras artistas têm suas raízes no funk tradicional com letras explícitas, a Anitta é apresentada como uma funkeira voltada para a cultura pop, com uma produção higienizada e pronta para o consumo. Artistas como a Anitta são reposicionadas em uma nova classe social, que embranquece suas expressões artísticas e as torna muito mais “adequadas” para a televisão brasileira.
Há divergências sobre os motivos que levam a Anitta a ter mais sucesso que outras artistas similares. Alguns ativistas acreditam ser devido a uma suposta branquitude. No entanto, enxergar Anitta como uma pessoa branca demonstra a naturalização do processo de embranquecimento racial. Em uma sociedade que tem como branca qualquer pessoa miscigenada de pele clara, o caso de Anitta merece no mínimo uma reflexão.
É preciso entender que a identidade que Anitta ou outras artistas possuem sobre suas cores é algo subjetivo, construído ao longo dos anos sob influência da sociedade. Não adianta relativizar o reconhecimento racial e reduzi-lo a uma questão de afirmação, pois compreender-se como negra não é um fator decisivo para que alguém seja tratada como negra; para isso acontecer, é necessário que a sociedade também consiga ver a negritude nessa pessoa.
A Anitta é um exemplo de uma mulher miscigenada que foi embraquecida e “enriquecida” para que o seu trabalho artístico fosse valorizado. A aparência de Anitta vem se tornando cada vez mais diferente desde a sua fama, com tratamentos de clareamento sobre uma imagem cada vez mais elitizada. Sabendo disso, vale a reflexão: será que Anitta é aceita por ser reconhecida como uma mulher branca ou terá embranquecido em busca de aceitação? Se outras funkeiras passassem por um processo de embraquecimento e elitização classial, seriam elas abraçadas pelos programas da televisão aberta nos mais diversos horários?
Esse processo não diz respeito somente ao embranquecimento de características físicas, como cabelos lisos, pele clara e nariz fino, mas está também relacionado à repressão da sexualidade feminina. O funk bem aceito socialmente é aquele que constrói uma sensualidade feminina tolerável, que não intimida o machismo. E a sexualidade feminina que é aceita é aquela que não causa choques. A Valesca Popozuda é um bom exemplo: embora em sua aparência atual ela seja vista como uma mulher “morena clara”, ou em alguns casos até mesmo branca, o modo como lida com o sexo sem eufemismos faz com que sua expressão artística seja repudiada socialmente.
Artistas femininas sofrem uma imposição de limite sobre a sensualidade, que só pode ser expressada de modo comedido e elitizado: uma mulher que rebola na MTV é muito mais aceita artisticamente do que aquela que rebola em um baile funk no morro. É extremamente importante notar, no entanto, que nenhuma mulher é plenamente aceita ao expressar sua sexualidade. Ao final do dia, todas essas mulheres têm algo em comum: todas elas são transformadas em objetos de consumo.
Ser consumida, nesse caso, significa oferecer a sensação de controle ao público masculino. A mulher objeto de consumo deve expressar sensualidade, mas não ao ponto de fazer com o que o homem se sinta ameaçado, nem na eminência de ser “traído”. Caso a mulher expresse sua sexualidade de forma objetiva e direta, ela é tida como uma “vadia” indigna de valor e seriedade. A mulher negra, especificamente, carrega nos ombros o estereótipo de “mulher consumível” e descartável, para ser “usada” e jogada fora, ao contrário do produto mais cotado e duradouro: a mulher branca. Essa é a realidade da misoginia: as mulheres são tratadas como mercadorias, algumas mais valorizadas do que outras.
Embora a questão da branquitude de Anitta seja debatível perante nossos olhos, o problema é muito mais profundo e está entranhado em diversas nuances da sociedade. A questão não é atribuir uma identidade a Anitta ou outras artistas brasileiras, mas sim levantar o questionamento sobre a possibilidade de sucesso e a aceitação social dependerem de uma branquitude, seja ela real ou imposta. Uma pele clara e um cabelo liso combinados com uma sexualidade moderada e restrita são necessárias para o sucesso das mulheres.
Seja ao chamar mulheres negras de morenas ou ao aceitar o “branco” como padrão, o racismo articula com a violência imposta sobre as classes desfavorecidas e encontra seu apogeu quando atua de forma machista. É preciso trazer todas essas nuances para o debate e trabalhar para destruir essas violências. A forma como as opressões atuam não é sempre tão óbvia, tampouco tão simplista. São necessárias uma dialética e uma visão abrangente, não polarizada, para que possamos transformar nossa cultura e conquistar a dignidade que é usurpada de tantas mulheres.
Jarid Arraes é educadora sexual e especialista em sex toys, sou estudante de Psicologia, feminista e ativista pelos Direitos Humanos. Trabalho voluntariamente com o grupo FEMICA – Feministas do Cariri e com o FQC – Feminismo Que Cola, realizando ações de educação popular sobre cidadania, diversidade sexual e de gênero, direitos da mulher e questões raciais. Escrevo sobre tudo isso no meu blog pessoal Mulher Dialética e mantenho o portal Guia Erógeno, um site com temática abrangente sobre sexualidade.

Matéria original: http://revistaforum.com.br/blog/2013/08/anitta-embranquecimento-e-elitizacao/?fb_action_ids=10201664451072043&fb_action_types=og.likes&fb_ref=.Ug-9uuMZgqI.like&fb_source=other_multiline&action_object_map=[522144767855143]&action_type_map=[%22og.likes%22]&action_ref_map=[%22.Ug-9uuMZgqI.like%22]
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Olavo de Carvalho: um filósofo para racistas e idiotas. - Texto do blog: Bertone Souza

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Olavo de Carvalho é um católico conservador que, incapaz de conviver com ideias diferentes na academia brasileira, resolveu estudar filosofia sozinho. Essa sua incapacidade, no entanto, é algo que marca toda a sua trajetória de vida, se traduzindo em uma profunda intolerância a qualquer pensamento divergente do seu. No site Mídia sem Máscara, do qual Olavo é dono, vários colunistas expõem todo tipo de pensamento preconceituoso, tacanho e reducionista travestidos de “jornalismo”.
Como católico conservador, Olavo possui um profundo medo de ir para o inferno após a morte. Embora isso seja risível, é o que ele demonstra em vários vídeos seus espalhados pelo Youtube, como este. E para tentar garantir sua ida ao céu, ele atribuiu a si mesmo uma missão: dedicar a vida a combater o comunismo e o marxismo em todas as suas formas de manifestação.  E nada escapa à sua obsessão anti-comunista: positivismo, ciência, secularismo, ateísmo – nada que não seja escolástico e profundamente reacionário. 
Não importa que a Guerra Fria tenha terminado e o comunismo internacional tenha arrefecido juntamente com ela; ele não se deu por satisfeito e continua sua cruzada incansável contra todo esquerdismo, como ele caracteriza as entidades globalistas que, segundo ele, pretendem solapar os valores da família cristã e impor em seu lugar a agenda dos movimentos homossexual, feminista e ambientalista. Há anos ele tem sido um dos defensores de golpes militares pró-Estados Unidos na América Latina.
Nos últimos quatro anos, Olavo não cessou de falar sobre a falsidade da certidão de nascimento de Barack Obama, advertindo que ele é comunista e membro da fraternidade islâmica, tendo sido eleito presidente para minar o poder dos Estados Unidos no mundo, o que pode ser visto através do enfraquecimento das forças armadas americanas e pelo favorecimento dos grupos ligados à fraternidade islâmica nos países onde ocorreu a “primavera árabe”. Ele costuma elogiar o patriotismo dos norte-americanos, a importância que dão às forças armadas e deplorar o fato de que isso não existe no Brasil. Às vezes se mostra entusiasta do regime que vigorou no Brasil durante o Segundo Reinado. Também deplora o fato de o regime militar brasileiro não ter aniquilado a esquerda, antes permitindo que se tornassem proprietários de editoras e meios de comunicação.
Acusando sempre a imprensa brasileira de ser aquiescente em relação a esses eventos, ele se coloca como um jornalista que fala “a verdade” dos fatos. Afirma que o Brasil vive um regime totalitário sob o governo do PT, nutre um profundo desprezo por Dilma, Lula, pela Teologia da Libertação e por todos os teóricos da esquerda, sejam brasileiros ou não. Ele mesmo não se envergonha de dizer que, quando Lula foi eleito, tentou alertar as autoridades americanas acerca da “ameaça” que representava sua subida ao poder. É muito curioso esse interesse que ele demonstra pelo nacionalismo americano e pela direita cristã que apoia o partido Republicano. Olavo fala de Lula como a própria encarnação do mal, e frequentemente se refere ao ex-presidente com espasmos viscerais de ódio. Denuncia que o PT pôs em prática a estratégia gramsciana de mudança da sociedade pelo controle permanente das instituições.
Ele atribui os problemas educacionais do Brasil unicamente à esquerda e omite o fato de que foi o regime militar que sucateou o ensino de humanidades no Brasil, excluindo dos currículos disciplinas como línguas clássicas e francês, além de filosofia e sociologia e reduzindo inclusive o ensino da língua portuguesa. Qualquer um que seja minimamente informado sabe que ele mente quando fala essas coisas. Tudo isso deixa bem claro que Olavo não quer um país onde a esquerda participe do jogo democrático. Embora queira passar a imagem de liberal, ele não o é. Prefere uma ditadura fascista ao estilo franquista, que esmague a oposição e imponha a ferro e fogo os valores do catolicismo tradicional e do pensamento conservador.
Olavo ministra, pela internet, um seminário de Filosofia, curso em que ele, sozinho, trabalha todos os aspectos da disciplina, além de lições sobre história, psicologia e o que mais lhe der na telha. Olavo pensa o mundo de forma monomaníaca: tudo o conduz para um discurso denuncista da esquerda. Ele afirma ter passado vários anos estudando o marxismo, período que ele considera como de “autoenvenenamento”. Não reconhece qualquer importância nos trabalhos de Marx e Engels ou de qualquer outro teórico da esquerda, associando sempre esses autores ao stalinismo e aos gulags. Apesar de afirmar que estuda o assunto há quatro décadas, ele repete há anos os mesmos chavões.
Embora nem tudo o que Olavo diga seja desprezível, e algumas de suas análises tenham certo teor de relevância, elas, no entanto, se perdem como gotículas no oceano de asneiras que ele profere. O problema não é o fato de ele ser de direita, mas de ter descambado para um pensamento intolerante, monomaníaco, mesquinho.  Alguém que leia Olavo de Carvalho verá o quanto ele está aquém de pensadores liberais (de verdade) que se destacaram no Brasil como Roque Spencer Maciel de Barros, por exemplo. Olavo é até mesmo indigno da grandeza dos autores de quem ele usurpa seu pretenso conservadorismo, como Ortega y Gasset, Ludwig Von Mises, Otto Maria Carpeaux, entre outros.
Já tentei buscar na internet informações sobre alunos e ex-alunos de Olavo de Carvalho. E com exceção de algumas frases bajulatórias em seu próprio site do Seminário de Filosofia, o resultado foi nada. Nenhum artigo, nenhum livro, ninguém que se dedique a qualquer área do pensamento filosófico e expresse isso em publicações. Olavo costuma dizer que nunca conheceu uma pessoa que tenha sido alfabetizada pelo método Paulo Freire. Da mesma forma, nunca conheci ou ouvi falar de um filósofo que tenha sido formado por ele. Esses alunos fantasmas vivem – como é de se esperar – silenciosamente paralisados à sombra de seu mestre, de quem são incapazes (ou têm medo) de discordar e mais incapazes ainda de produzir algo minimamente relevante.
Mas então, onde estão e quem são essas pessoas? O que elas produzem? Olhando os comentários aos vídeos semanais de Olavo no canal do Mídia sem Máscara no Youtube, podemos ter uma dimensão do perfil de seus seguidores. Muitos o chamam de “grande mestre”, e, seguindo seu exemplo, achincalham a esquerda sem um mínimo de reflexão teórica. Em um de seus programas recentes, um ouvinte ligou e afirmou de forma iracunda que “odeia a esquerda”. Olavo esboça um semblante de satisfação e lhe diz mansamente que não tem que odiar ninguém, que ele precisa ser profissional.
Mas que tipo de profissionalismo ele pode esperar de seu pupilo, se o que ele diz é a única coisa que aprendeu com o mestre: detestar irracionalmente toda forma de esquerdismo, mesmo que determinadas pessoas ou movimentos nada tenham de esquerdistas ou marxistas? E verbalizar esse ódio com xingamentos e esculhambações?
No ano passado, uma reportagem do portal Ig noticiou a atividade de alguns jovens universitários de direita, que, inspirados em Olavo de Carvalho, defendem valores tradicionais e afirmam estarem dispostos a usar a força física e a morrer por isso, estratégia semelhante ao do grupo racista skinheads, demonstra a reportagem. Embora Olavo posteriormente tenha negado qualquer ligação com esses grupos e criticado a reportagem, fica evidente que esse é o resultado mais óbvio de suas posturas políticas: o incentivo a atos e pensamentos de intolerância, facilmente assimiláveis por grupos de extrema direita.
A maioria de seus admiradores não são leitores de filosofia, são antes jovens carentes de um pai, de um líder, de um guia, de um führer. São pessoas incapazes de pensar por si mesmas e compartilham com seu mestre o desprezo pela academia. Apesar de todas as suas limitações e defeitos, a academia é o lugar onde ideias podem ser livremente debatidas. Essas pessoas, no entanto, não querem debates, elas querem a imposição do que pensam que pensam, sem saberem que na verdade não pensam nada. Como Olavo, seus seguidores veem esquerda e comunistas por toda parte, um inimigo a quem eles atribuem uma importância que não existe fora de suas mentes.
Ele ainda aconselha seus alunos a usarem textos anti-marxistas de seu site para enfrentarem professores nas universidades e já citou até exemplos de que isso deu certo. Ora, somente professores muito ingênuos e dogmáticos (e ainda há muitos desses por aí) podem cair nessa. Como se não bastasse, seus seguidores têm lançado diversos produtos com a marca “Olavettes”, contendo frases de seu mestre e com o dizer “Olavettes é nóis mermo”. Não são intelectuais, são tolos. São como crianças imitando adultos, com a diferença de que as crianças carregam a pureza da inocência, e eles a terrível marca da estupidez. Esse comportamento das “olavettes” é de causar vergonha alheia, a começar pelo nome que escolheram para designar a si próprios. Enquanto Olavo continua sua empreitada para tentar chegar ao céu, seus discursos têm atraído uma legião de seguidores, fascinados por seu estilo histriônico de falar, por seus xingamentos e por sua intolerância. Essas pessoas não se destacam por erudição ou produção intelectual, mas pela abjeção de suas ações.
Para que os leitores percebem o quanto Olavo realmente não pode ser levado a sério, vejam a “refutação” que ele faz à ciência moderna e à teoria da relatividade neste vídeo. Chega mesmo a ser patológica a obsessão deste homem para ridicularizar qualquer coisa que não se enquadre em sua estreitíssima visão de mundo formada pelo ideário fascista e por dogmas da escolástica medieval. Sem absolutamente nenhuma referência teórica, sem menção a nenhuma pesquisa, ele tem a desfaçatez de sugerir que a terra é imóvel! Tudo porque o modelo copernicano mostrou a falsidade da cosmologia ptolomaica adotada pela Igreja. Esqueceram de avisar a Olavo que a própria Igreja hoje não pensa mais dessa forma, mudou seus conceitos e já até se desculpou com Galileu através de João Paulo II. O Vaticano inclusive conta com um centro avançado de pesquisa científica, onde atuam pesquisadores de várias partes do mundo.
E como alguém pode refutar a relatividade sem ao menos compreendê-la como ele próprio admite no vídeo? No auge de sua ignorância cínica, Olavo diz que Einstein inventou a teoria da relatividade pra não ter que admitir que a terra é imóvel. É impressionante quantas pessoas dão crédito e se deixam enganar por um impostor que se finge de filósofo e intelectual e pronuncia tantas asneiras absurdas e risíveis. Não é à toa que  apenas skinheads e outros grupos racistas, além de incautos sugestionáveis admiram o tal “filósofo”. Os verdadeiros liberais e pessoas sensatas da direita se envergonham até mesmo de mencionar-lhe o nome, afinal Olavo não é referência para nada que se queira produzir cientificamente. Ele mescla seus sentimentos de revolta pessoal com a esquerda com fanatismo religioso e sua personalidade megalomaníaca de se achar “um grande intelectual” a quem ninguém se compara no Brasil. É de dar dó. Ele critica intelectuais como Leandro Konder chamando-os de militantes mas incrivelmente não consegue se enxergar como militante de extrema direita.
Se fôssemos elencar as asneiras ditas e escritas por ele, teríamos de fazer um blog voltado exclusivamente a isso. Apenas mais um exemplo: em seu site pessoal há um texto assinado por José Nivaldo Cordeiro, “Discutindo o capitalismo”. No texto, o autor, que não passa de uma sombra de Olavo de Carvalho, fala coisas tão infundadas sobre Weber e Marx que não é possível dizer que se trata de um texto sério. Ele diz que o cristianismo fundou o princípio da igualdade jurídica quando lançou a máxima do “amar ao próximo como a si mesmo”. A noção de igualdade do Cristianismo primitivo não era jurídica, mas espiritual, não é à toa que suas verdades permaneceram no nível da dogmática por muitos séculos, apenas tardiamente ganhando elaboração intelectual. A moderna noção de igualdade jurídica remonta aos pensadores deístas do Iluminismo e, com base em suas ideias, à subsequente separação entre Estado e religião. A Igreja Católica não poderia tê-la desenvolvido na Idade Média porque sua cosmovisão estava ancorada no tomismo e na Escolástica, que preconizavam a subordinação do Estado à Igreja como a ordem natural estava subordinada à sobrenatural. No Antigo Regime da era moderna, o Estado, em aliança com a Igreja, exercia o poder a partir do princípio do direito divino dos reis, uma das características a que posteriormente se opôs o pensamento liberal, de matriz protestante. O que ele fala sobre “amor ao próximo” sequer pode ser considerado um argumento porque não tem fundamento histórico. A noção de igualdade jurídica é um anacronismo se aplicado à Idade Média. A atuação dos Tribunais da Inquisição também o provam. Durante séculos, dezenas de milhares de pessoas foram torturadas e executadas por divergirem ou serem suspeitas de divergirem dos dogmas oficiais da Igreja. Os tribunais não tinham preocupações com provas, qualquer acusação do tipo “ouvi dizer que fulano…” já eram suficientes para levar alguém a se tornar réu. Uma vez nessa condição, não havia possibilidade de absolvição. Depois ele diz que “sem a mensagem salvadora de Cristo ainda estaríamos vivendo formas imperiais e/ou tribais de organização social”. Será que o senhor Nivaldo Cordeiro não sabe o que foi o feudalismo, o cesaropapismo, a servidão que subsistiu por mais de um milênio após a queda do Império Romano? Claro que sabe, mas omite isso.
Depois ele diz que Weber cometeu vários erros, como “associar a eclosão do capitalismo ao protestantismo” e que ele fez isso por ser protestante e ter uma visão depreciativa do catolicismo e diz que houve uma “explosão de produtividade agrícola na Idade Média pelo talento dos monges católicos”. Parece que o autor nunca leu nem Weber nem autores renomados como Jacques Le Goff, Henri Pirenni e outros. Só faltou ele dizer que a Revolução Industrial começou nos mosteiros medievais. Ora, Weber não associou a origem do capitalismo ao protestantismo mas mostrou a diferença entre o ascetismo católico (extramundano) e o protestante (intramundano), demonstrando como a mentalidade deste último foi essencial para o desenvolvimento do comércio e, posteriormente, da indústria.  E isso nada tinha a ver com o fato de ele ser protestante ou não gostar do catolicismo. No texto, “Rejeições Religiosas do mundo e suas direções”, Weber retoma o assunto acrescentando outros elementos importantes, que Nivaldo Cordeiro sequer se deu o trabalho de ler, assim como não leu o capítulo de “Sociologia da Religião” na obra “Economia e Sociedade”, também do Weber. Não é por acaso que as análises de Weber sobre o tema continuam não apenas atuais e insuperadas, como também não houve críticas capazes de mostrar qualquer falsidade nelas.
No parágrafo seguinte ele diz que a Igreja adquiriu uma “herança imperial maldita” de Roma. “Herança maldita?” O uso de tal juízo de valor, depreciativo e absolutamente desnecessário pra algo que pretendia ser uma discussão histórica, já é suficiente para despacharmos o texto para o lixo. Aqui ele prova sua falta de seriedade, de distanciamento do objeto, sua ignorância histórica. Ele está analisando a origem do capitalismo não com base numa pesquisa ou discussão teórica, mas com base em seus sentimentos pessoais de aversão ao protestantismo, em seu fanatismo religioso. Ele utiliza autores como Paul Johnson, mas numa apropriação ingênua. Ele quer mostrar que o protestantismo não foi importante para o capitalismo, associando isso à herança clássica apropriada pela Igreja. Trata-se de uma interpretação completamente falsa de Weber e da retomada da herança clássica no Renascimento. Não vou entrar em detalhes sobre Weber porque em minhas publicações já discuti isso. Além disso há uma farta bibliografia sobre o assunto disponível inclusive na internet que o leitor pode usar para se informar, como os artigos do falecido sociólogo da USP Antonio Flavio Pierucci, um dos principais divulgadores da obra de Weber no Brasil, que ainda ajudou a traduzir e organizou a publicação de  ”A Ética Protestante…” para o português para a editora Companhia das Letras. Vale ainda indicar a biografia intelectual de Weber de Reinhard Bendix, uma das melhores já produzidas. A estratégia de Olavo e seguidores é a seguinte: eles pegam alguns autores católicos ou de extrema direita, reafirmam o que eles dizem abrindo mão do diálogo com qualquer outro autor ou vertente, depois posam de grandes intelectuais e sabichões. Se a pessoa não for atenta cai na armadilha porque eles argumentam bem, usam a dialética erística pra enganar os incautos.  São pessoas inescrupulosas e que não têm comprometimento com a investigação científica, só com a militância e não se envergonham de fraudar os fatos para se colocarem como arautos da razão.
Uma vez, enquanto apresentava seu programa de rádio True Outspeak, um ouvinte telefonou e perguntou a Olavo o que ele achava da filosofia de Paul Ricoeur. Olavo respondeu diminuindo a importância da obra dele e dizendo que não tiraria três meses de sua vida pra ler Paul Ricoeur. Quem já teve contato com a obra de Ricoeur sabe que foi um dos mais importantes filósofos do século passado, principalmente por seus estudos sobre narrativa histórica e de ficção, hermenêutica e sobre a memória. É muito estranho Olavo ignorar sua obra e se recusar a estudá-la. Mas logo compreendi o porquê: Ricoeur não era um teórico da conspiração nem um militante anti-comunista e pra Olavo não interessam discussões fora desse campo. Ricoeur era um intelectual católico, mas não um extremista. Também me causa muita estranheza o fato de os seguidores de Olavo não perceberem sua desonestidade intelectual: ele se tornou obcecado pra combater o marxismo e faz isso a partir de posturas tacanhas como o fanatismo religioso, facilmente assimilável por jovens com pouca leitura de livros e de mundo.
Muitos outros exemplos poderiam ser citados, mas o que foi exposto já serve como amostra de quem se trata o homem que considera a si mesmo “o maior representante da alta cultura” no Brasil. Olavo de Carvalho não é filósofo, é um tagarela anticomunista, teórico da conspiração, ex-astrólogo revoltado por não ter encontrado espaço na universidade brasileira para suas logomaquias megalomaníacas e obsedado por sua intelectualidade imaginária. Um ogro da extrema direita brasileira.
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Postagem original: http://bertonesousa.wordpress.com/2012/10/28/olavo-de-carvalho-um-filosofo-para-racistas-e-idiotas/
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