26 fevereiro 2015

A casa grande ainda mora em nossos teatros

Postado Por: Átila Siqueira.  |  Em: ,




         Fui a uma peça de teatro nesse fim de semana com a minha namorada. Tratava-se de um espetáculo da campanha de popularização do teatro e da dança, uma das iniciativas culturais mais interessantes que ocorre na região metropolitana de Belo Horizonte. Era uma peça de comédia, a casa estava cheia, quase não havia local para sentar, pois se tratava de uma das peças mais badaladas aqui em Minas Gerais, uma comédia chamada: “Acredite, um espírito baixou em mim”.
         A peça é uma comédia até interessante, mas o que mais me chamou a atenção foi perceber que a nossa classe média ainda não se livrou de alguns estereótipos, de alguns preconceitos viscerais que existem na sociedade brasileira, fruto de um elitismo cultural que vem de nossos tempos coloniais/coronelistas e do nosso processo de modernização feito através de uma elite que desejava ser europeia/estadunidense. Nessa peça pude perceber claramente o classismo, um racismo bem apagado, mas presente, e uma homofobia transvertida em humor que talvez seja hoje uma das questões mais cruéis que nossa sociedade ainda mantém.
         Realmente eu não acho que os atores tinham a intenção de ofender alguém, até pelo contrário. Eles me pareceram bastante simpáticos. E talvez tenha sido isso que tenha mais me preocupado. Talvez eles tenham sido racistas, homofóbicos, classistas e elitistas sem mesmo perceberem que estavam fazendo isso. Fizeram de forma inocente e naturalizaram as coisas. Ali se construiu um deboche ao Outro, construindo assim, uma identidade ideal padrão. O normal, belo, bonito, ficou sendo representado pelo homem branco, bem sucedido de classe média, enquanto o anormal e motivo de risos foi constituído na figura do pobre, homossexual e da mulher brega de origem pobre.
         Os velhos estereótipos produtores dos nossos piores preconceitos aparecem ali. O gay como motivo de chacota, ao lado pobre. A ausência do negro. Os ofícios dos pobres mostrados como algo negativo, e, por fim, como positivo, a figura do homem branco, heterossexual, jovem, de cabelos lisos.

         É a perpetuação dos velhos preconceitos como algo correto, em tom de humor, proferido a um público de classe média de escolaridade média, que não conhece os mínimos conceitos históricos para compreender as origens dessas ideias e o quanto elas podem ser nocivas à sociedade. Isso explica a quantidade de risadas que eu ouvi, enquanto eu ouvia estarrecido os pobres e os gays serem motivos de chacota.

Átila Siqueira é Historiador, Bacharel em História pela PUC-MG e Mestrando em História, pelo programa de pós-graduação em História da UFMG, na linha de História e Culturas Políticas.

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