30 janeiro 2014

O Brasil sofre de uma baixa escolaridade endêmica.

Postado Por: Átila Siqueira.  |  Em: ,




Depois de muito ler sobre o Brasil e de me manter ativo na sociedade, enquanto cientista social, escritor e cidadão militante de várias causas históricas, o que eu percebi é que o Brasil sofre de uma baixa escolaridade endêmica. Isso não quer dizer que as pessoas não estão indo a escola, nem que não estão se formando, ou ainda, que a escolaridade no Brasil não tem aumentado.

O que acontece é que existe um distanciamento entre o mundo acadêmico-científico e o mundo cotidiano, sobretudo quando se refere às disciplinas de ciências humanas, que são exatamente aquelas que estudam e refletem sobre as sociedades. Muito disso ocorre por culpa dos próprios cientistas sociais, que não conseguem construir um trabalho sistemático de divulgação científica, o que priva as pessoas que estão fora da academia de suas reflexões e estudos, dando espaço para o surgimento de indivíduos pouco instruídos que se tornam formadores de opinião, ocupando o espaço vazio que os sociólogos, historiadores, filósofos e antropólogos deixam.

O problema então se torna endêmico: as pessoas não conhecem a história, os conceitos básicos da cidadania e do Estado de Direito, não sabem como funciona a política, as instituições, não sabem seus direitos e deveres e se deixam levar por formadores de opinião que também não sabem nada disso e que ainda têm interesses a serem defendidos quando produzem sua opinião na grande mídia e na internet. A escola não é suficiente para romper isso, pois a quantidade de aulas de ciências humanas é inadequada e muitos dos professores são pouco capacitados, além de livros didáticos ruins (essa situação tem mudado lentamente: os professores atuais estão mais bem qualificados nas ciências humanas e os livros mostram uma melhora significativa, por estarem sendo escritos por outros cientistas sociais, ao contrário do que ocorria antes, quando eram escritos por jornalistas e advogados) e, principalmente, muitos alunos não estudam de fato, por não terem estrutura familiar para isso, o que também produz uma situação que não propicia ambiente que instigue o conhecimento e a reflexão aprofundada e baseada em estudos sérios, além da própria situação familiar, de baixa escolaridade de irmãos e parentes não auxiliar na construção de uma real absorção do aprendizado.

Para piorar temos uma mídia idiotizante, com interesses segregacionistas, programas imbecilizantes na televisão, baixa quantidade de leitura e ainda mais baixa quantidade de leitura de qualidade (isso não quer dizer que o povo seja completamente a-crítico e que não resista e construa suas próprias demandas frente aos interesses das elites e da mídia), além de muitas igrejas e poucas escolas e universidades (o problema não é existir igrejas, mas sim como elas se comportam, tentando impor ao Estado de direito os preceitos de seus livros sagrados e seus próprios preceitos como verdades absolutas e como leis para todos, embora a religião devesse ficar somente no campo privado das pessoas e dos templos. Isso sem contar a própria interferência no corpo social, afastando seus seguidores de estudos científicos e os levando a crer somente nos preceitos religiosos). O resultado disso é uma sociedade que não conhece sua história (e quando acha que conhece comete erros interpretativos dos mais grotescos possíveis), não sabe o que é cidadania e não consegue discernir entre Estado, sociedade, público, privado, religião, direito e dever.

É o que vemos, por exemplo, nos usos indiscriminados de termos como nazismo, nas interpretações sobre os movimentos sociais, sobre o feminismo outros assuntos mais. As pessoas desejam opinar sobre esses assuntos, mas fazem isso se baseando em outras pessoas que também não compreendem de fato esses processos, ao invés de se basear em livros especializados, produzidos por autores que dedicavam uma vida inteira a esses assuntos.

Essa e a baixa escolaridade endêmica, que mantém os preconceitos, as segregações, o achismo sem leitura, se apoiando em preceitos falidos. É realmente um caso de endemia, que não se resolve somente com Escola e universidade, embora ambas as coisas sejam mais do que essenciais. Se resolve trabalhando com a sociedade dia após dia, levando cidadania, dialogando, divulgando o conhecimento e o tornando acessível. Esse é o desafio do Brasil, ou pelo menos um deles, acabar com a baixa escolaridade endêmica, levando os conceitos básicos as pessoas, produzindo cidadania e consciência histórico-social.

Átila Siqueira

Átila Siqueira é Historiador, Bacharel em História pela PUC-MG e Mestrando em História, pelo programa de pós-graduação em História da UFMG, na linha de História e Culturas Políticas.

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