10 julho 2013

A Greve geral do dia 11. Greve ou ato Coxinha?

Postado Por: Átila Siqueira.  |  Em: ,




Uma greve foi chamada para o dia 11/07/2013 em todo o país. Estão convocando uma greve geral, porém, não se sabe muito bem quem está convocando a greve e muito menos qual é a pauta do movimento. Em cada lugar eu tenho visto pautas diversas e, muitas delas são mesmo desconexas e incoerentes umas com as outras, isso para não falar nas pautas genéricas que não chegam a lugar nenhum, como pautas quem dizem: “Pelo fim da corrupção”.

Vários sindicatos já avisaram que não estão aderindo a greve, outros estão aderindo para aproveitar e reivindicar causas específicas. Bom, mas uma greve geral não deveria ser uma greve de todos ou pelos menos de todo o país em torno de uma pauta? Qual a reivindicação que une todas essas pessoas? E de fato, qual são os interesses reais e políticos por trás de quem convocou esse movimento? Qual a extensão desses grevistas? Quem são? O que querem? São muitos, poucos? São a maior parte da população? Essas são somente algumas perguntas que podemos nos fazer, afinal de contas, questionar deveria ser algo mais do que óbvio em uma democracia onde se pretende melhorar o país.

Eu tenho percebido que não só essa greve, como a tal greve geral do dia 01/07/2013, que acabou em fiasco, foram chamadas por grupos muito distintos da sociedade, notadamente pela classe média e por sindicatos patronais, como o sindicato patronal de caminhoneiros que foi um dos principais articuladores da greve geral do dia 01. Tenho percebido também que as pautas são difusas e os manifestantes não sabem muito bem o que querem. Eles querem um Brasil melhor, sem corrupção, com mais saúde e educação. Pelo menos é o que a maior parte deles dizem, sem produzirem propostas mais concretas sobre o assunto. No geral são jovens da classe média e existe uma tendência a repudiar todos os partidos políticos.

O que eu tenho a dizer é que uma greve sem sindicatos de trabalhadores, sem pautas reais e que mesmo assim almeja parar o país todo (embora eu creia que isso não acontecerá de fato) só pode ter objetivos eleitorais. Não que todos os manifestantes estejam com esse objetivo, mas creio que os principais articuladores estejam.

Eu tenho para mim que o principal objetivo de tudo isso seja causar desgaste a gestão da Presidenta Dilma Roussef, que tentará se reeleger nas eleições de 2014.

Se o objetivo é derrubar a Dilma, tudo bem, pois é legítimo que em uma democracia se trabalhe por objetivos políticos. O problema é tentar colocar todos os problemas do Brasil na conta da presidenta, e na conta de seu antecessor, o ex-presidente Lula. Isso vem em grande parte acontecendo, a conta tem caído em seu colo, o que mostra uma certa ardilosidade por parte de alguns e uma ingenuidade e falta de conhecimento por parte de outros.

A grande mídia tem tentado enfatizar nas manifestações aquilo que lhe é conveniente, clamando por um patriotismo que qualquer um que passou da 6ª sem dormir nas aulas de história sabe que é no mínimo nocivo a sociedade. Essa mesma mídia tenta colocar os problemas na conta da presidenta e do pt, omitindo as responsabilidade de outros poderes da república, como prefeituras, governos estaduais, ministérios públicos, poder judiciário, câmara dos deputados, Senado, assembleias municipais, estaduais e federal.

Para piorar a situação, tenta-se produzir a ideia de crise, falando-se em inflação, embora ela esteja no mesmo nível que sempre esteve desde a adoção do Plano Real; em crise econômica, embora o Brasil esteja crescendo no mesmo patamar dos demais países do mundo, e em crise na saúde e na educação, embora o Brasil tenha avançado como nunca nas duas áreas nos últimos 10 anos, pois melhorou muito a educação, com Prouni, Reuni e outros programas e com investimentos recordes na área, e ampliou o número de atendimentos no SUS de forma extraordinária. E claro, os problemas do SUS, da educação e até do transporte público, todos de alçada dos Estados e Municípios, são jogados de paraquedas no colo da presidenta por uma mídia que tem interesses políticos, por líderes políticos que também possuem os mesmos objetivos da grande mídia, e por uma massa de jovens que deseja melhorias e que está indo na onda, sem saber muito bem do que se trata a situação e a quem culpar exatamente.

Os mais revoltados são da classe média, pois se viram tendo de dividir privilégios com as classes mais pobres ascendentes, pois é inegável que nos dois governos petistas os mais pobres tiveram oportunidades que jamais tiveram antes, como emprego, aumento substancial de renda, acesso a universidade, a carro, a casa própria, a boa alimentação e a cursos e oportunidades diversas, enquanto a classe média ficou estagnada, sem receber novas melhorias e muitas vezes perdendo status. Mas como o Brasil, embora tenha melhorado em vários aspectos, ainda deixa muito a desejar em seus serviços públicos, as manifestações ganham apoio popular, embora continuem tendo como sujeitos ativos essencialmente a classe média, que também não sabe muito bem o que reivindicar e reivindica melhoras que já estão acontecendo em todo o país, embora em ritmo que não os agrada.

Eles saem a rua para pedir mais educação e saúde ao governo que mais deu isso ao povo até hoje.
A situação de insatisfação geral é também fruto de uma sociedade que vem se tornando cada vez mais exigente, exatamente porque tem oportunidades para isso, pois obteve melhorias, e agora deseja ainda mais. Contudo, isso pode ser um tiro no pé, pois as manifestações podem gerar consequências distantes daquelas almejadas, retirando a presidência do partido que já vem promovendo tais reformas e entregando o cargo ao candidato que não tem compromisso com a maior parte das reivindicações que estamos vendo nas ruas. É o que eu sempre tenho dito aos meus amigos dos partidos de ultra-esquerda, como PSTU, PSOL, PCO, PCR e mesmo os sem partidos, que estão nas ruas. Eu digo a eles o seguinte: Vocês estão preparados para arcar com as consequências reais que podem advir dessas manifestações? Vejam bem, vocês não possuem candidatos reais para o pleito de 2014, não possuem nenhum candidato de esquerda com chances reais, então, se derrubarem o pt, vão construir a candidatura da direita, do PSDB, de Aécio Neves. Vocês estão preparados para ajudar e servirem, mesmo sem querer, como cabos eleitorais do Aécio Neves? É isso que vocês querem? Vocês querem mesmo ajudar o Aécio Neves a se tornar presidente? Ou então ajudar o Serra? Vocês realmente preferem o PSDB ao PT na presidência? Vejam bem, vocês podem até não estarem trabalhando para isso diretamente, mas percebam, a mídia e o PSDB usarão seus protestos a favor de interesses próprios, vocês queiram ou não, e os protestos vão cair na conta da Dilma, logo, vocês estarão sendo oposição ao governo dela e ajudando a oposição a voltar ao poder.

No fim das contas, a tal greve geral, pelo que tudo indica, não vai passar muito de mais um movimento de classe média no Brasil. O povo mesmo não está fazendo greve, salvo algumas exceções. Vai ser mais um movimento sem pauta reivindicatória real, sem grande adesão, mas que sim, pode causar grande impacto político e desgaste. Nos resta saber, então, a quem de fato tem interessado tudo isso. Ao meu ver não tem sido de interesse do trabalhador mesmo, do trabalhador de verdade, pois o trabalhador brasileiro, os mais pobres, a grande maioria da população, foi beneficiada como nunca antes, com emprego, com ampliação de sua renda, com acesso a estudos e a oportunidades. O trabalhador, gostemos ou não, foi beneficiado por esse governo que está ai, e mesmo que seja levado a se opor a ele, creio eu que depois pode haver arrependimento, quando o desemprego bater a porta de novo e vários benefícios e oportunidades desaparecerem, caso o PT saia da presidência e uma outra gestão, com outros objetivos, a substitua.

Eu vi também grupos de esquerda dizendo que irão as ruas e tentarão produzir suas demandas, mas acho que o movimento será mesmo mais um movimento coxinha, de classe média, muito mais reacionário do que revolucionário, com pautas genéricas, com pouca informação e informações manipuladas pela grande mídia, com um patriotismo sem senso crítico, com medo de reformas e clamando por ideias e reivindicações que dificilmente se sustentariam em um debate racional, tal como os nosso médicos, que não querem perder seus privilégios. Duvido muito que se torne uma greve geral, pois greve é outra coisa. Eu só acho uma pena ver que as pessoas, em grande parte, não busquem informações sobre as coisas e saiam as ruas para protestar sem saber de fato do que se trata o protesto ou pelo que protestar exatamente. E o pior é que dependendo do resultado que esses protestos gerem, podemos ainda piorar a situação, pois certos resultados eleitorais podem reduzir ainda mais o nosso público leitor, reduzindo vagas nas universidades e piorando a nossa educação, com cortes no orçamento e choques de gestão, o que provavelmente diminuirá a nossa classe pensante e questionadora até que ela vire pó, se é que me entendem.

Átila Siqueira.

Átila Siqueira é Bacharel em História pela PUC-MG e escritor.

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